LIBRA - Uma nova moeda internacional?
Inovações disruptivas estão se
tornando parte do cenário econômico, principalmente possibilitadas por
tecnologia que permite armazenamento de dados e operações por custo cada vez
menor, tornando viáveis novos modelos de negócio. Embora existam dúvidas sobre
a possibilidade de sucesso da empreitada de criação de uma criptomeda, a Libra capitaneada pelo Facebook, não
existe dúvida sobre a força de seu efeito rede e sua capacidade financeira.
Ademais, os parceiros que já embarcaram na iniciativa são players importantes
de sistemas de pagamento e têm conhecimento profundo desse mercado.
A visão apresentada no “livro
branco” da nova moeda, é a de ser Simples, Inclusiva e Global[i]. A mensagem principal é de dar acesso a serviços
financeiros a um enorme número de pessoas desbancarizadas, no mundo inteiro,
devido a dificuldades físicas ou financeiras de acesso a instituições
financeiras tradicionais. Meus comentários a seguir são de ordem econômica,
levando em conta, principalmente a possibilidade da Libra ser utilizada como
ferramenta de inclusão.
A simplicidade já está testada uma vez que
seria possível a operação por meio do aplicativo de mensagens do próprio
Facebook ou de aplicativos relacionados como Whatsapp e Instagram. O Facebook
tem aproximadamente 2,5 bilhões de usuários no mundo inteiro, para os quais não
seria problema enviar mensagens, com ordens de pagamento.
Por outro lado, seria tão simples
para um usuário não bancarizado entender que o valor de suas libras depositadas
poderia variar em termos de moedas nacionais? Apesar da intenção manifesta de reduzir
a volatilidade da criptomoeda libra, por meio de depósitos ou títulos de curto
prazo denominados em uma cesta de moedas, o valor de troca ou resgate não está
garantido. Lembre-se aqui, que a tentativa de criação de um ativo global, os
Direitos Especiais de Saque do FMI, não conseguiu demonstrar sua supremacia em
termos de reserva de valor, por exemplo.
Esse problema diminuiu na medida
em que a libra se torne também uma unidade de conta e que comerciantes e
fornecedores de serviços aceitem ser pagos na moeda, ou seja na medida de sua
aceitação. Pela própria lógica do aplicativo, o Facebook terá toda motivação e
capacidade de “segurar” o usuário no seu ecossistema.
Já a inclusividade está relacionada ao grau de
facilidade da obtenção de libras. A formação direta de uma carteira envolveria,
em algum elo, a utilização de uma moeda nacional e consequentemente acesso a
conta bancária para transferência de valor. Uma outra possibilidade seria pelo
recebimento de pagamentos em libra por bens e serviços ou mesmo por
transferência de libras de alguém que tenha acesso. Segundo o livro branco, a
partir de uma carteira de libras, os pagamentos seriam realizados a custo muito
mais baixo que o vigente hoje.
Uma ineficiência claramente a ser
explorada são as transferências internacionais de pequenos valores, as chamadas
pequenas remessas internacionais de trabalhadores para sustento ou investimento
no país de origem, ou no sentido contrário para manutenção de pessoas que
tiveram que abandonar o seu país. Atualmente as tarifas cobradas não espelham o
custo de transferência que devido a tecnologias avançadas é somente uma fração
do valor cobrado.
Esse aspecto traz à discussão a
pretensão de ser uma moeda
global. Quando
moedas nacionais estão envolvidas, a definição de uma moeda internacional ou
globalizada se refere a utilização dessa moeda fora das fronteiras nacionais
para compra, de bens e serviços ou transações financeiras, por não residentes
no país de origem da moeda. Já o uso global da criptomoeda Libra seria o caso
de sua utilização para remessas ou compras de bens e serviços em outros países
que não o do remetente da moeda. Ainda fazendo o elo com o sistema monetário
internacional, o Fundo Monetário Internacional considera que uma moeda de livre
uso global - é aquela que é amplamente utilizada no comércio internacional
e amplamente transacionada nos principais mercados financeiros internacionais
(widely used and widely traded).
Se a criptomoeda Libra assumir
esses papéis poderá concorrer com dólar, euro, libra – a original da Grã Bretanha – iene e yuan chinês!
Talvez por isso o seu lançamento, capitaneado pelo Facebook, tenha suscitado
reações, comentários e explicações, segundo minha observação, maiores no plano
governamental internacional do que no nacional. Estas, variaram de aceitação
cautelosa (Governador do Banco da Inglaterra) enfatizando a necessidade de
regulação tanto sobre lavagem de dinheiro quando sobre proteção do consumidor à
criação, pela França, de uma força tarefa do Grupo dos 7 com os mesmos objetivos.
A acompanhar!
[i] é só
pesquisar Libra White paper em qualquer buscador para ter acesso às principais
características da moeda segundo seus criadores